

Queridas Irmãs, seguem, a passos largos, os dias deste segundo ano do Triênio em preparação ao Centenário da fundação do Intitituto. Não devemos nos esquecer que fomos convocadas, especialmente pela Direção da nossa Região, a vivenciar, da melhor maneira possível, este tempo. Envio um segundo tema para a nossa reflexão. Busquem dar mão livre ao Espírito Santo de Deus no aprofundamento individual e em comunidade. Escolhi como tema para nossa reflexão estes dois conceitos: “abismo da indiferença” e “santa indiferença.” Dois conceitos que, a primeira vista, parecem ser contraditórios entre si, que parecem ser excludentes, isto é, um como que obrigatoriamente elimina o outro. Será assim? “Abismo da indiferença”! O Papa Francisco comentando o Evangelho do rico opulente e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31), empregou este conceito do “abismo da indiferença”. Tecendo um paralelo entre a indiferença do rico em relação ao pobre Lazaro e a nossa indiferença para com o drama daqueles que sofrem,o Papa falou sobre a informação que não chega ao coração. Como ocorrera com o rico opulente, pode acontecer com cada um de nós. O rico sabia que existia um mendigo na porta de sua casa e isto parecia que era natural. Sabia até o seu nome: Lázaro! Nós também sabemos, porque vimos no telejornal, vimos quantas crianças sofrem e até morremde fome hoje no mundo; quantos não têm os remédios necessários; quantas crianças não podem ir à escola, etc.; nós o sabemos, mas continuamos como se não o soubéssemos. Esta informação não chega ao coração. Distanciamento:o drama de estar bem informado, mas não sentir. Saber, mas não compadecer-seda realidade dos outros. Um coração fechado, como nos lembra a passagem bíblica, faz perder a nossa identidade real, o nosso nome, e somente nos leva a avaliar os adjetivos. Perdemos o nome! Somos somente os ricos, somos isto, somos aquilo. Somos os adjetivos. Assim “o rico”, o sem nome, era indiferente à dor do Lázaro. Este é o abismo da indiferença que gera um“umgrande abismo”! “Santa indiferença”! A doutrina da “santa indiferença”significa:confiança total em Deus e certeza que Ele nunca nos abandona. SegundoSanto Inácio de Loyola: é a total disponibilidade de acolher a vontade de Deus. Não se trata só de aderir à vontade de Deus, mas de não ter outra vontade fora a de Deus, de querer somente o que Deus quer! Segundo Orígenes seria o“regresso ao paraíso”, isto é, fixar o olhar em Deus e não querer outra coisa sobre esta terra que não seja viver sob esse olhar de Amor.
Santa indiferença, não é esquecer a realidade e nem negar a dureza do momento, mas é ter um olhar para toda a realidade. Assim como o fez o teólogo luterano Dietrich Bonhoffer, que, enquanto estava na prisão e aguardando a execução, escreveu: “A partir de forças amigas e maravilhosamente envoltos esperamos ansiosos o futuro. Deus está conosco, à noite e pela manhã, estará conosco todos os dias novamente”. Também São Francisco de Assis, que superou a tristeza e as preocupações por causa da resistência de alguns confrades ao seu ideal afirmando:“Deus existe, e é o suficiente!” Santa indiferença experimentaram nossas Irmãs quando, na dor, tiveram que deixar a Casa Mãe após a supressão do Instituto pela Gestapo. Assim escreveu Ir. Clementine: “As Irmãs da Casa Mãe assumiram calma e tranquilamente, alegre e corajosamente, a nova vida. Os corações se alargaram. Todos estamos bem. A Presença oculta de Deus e sua evidente bondade paterna são para nós pátria, luz, alegria permanente, paz, tranquilidade, força invencível, são enfim tudo em tudo! O grande pedido, que depositamos há vários anos no altar do sacrifício de Cristo, começou a se realizar. Te Deum laudamus!”. Por fim, olhemos para Abraão. Conforme São Paulo, Rm 4,16ss – este homem olha para o seu corpo envelhecido já sem vida, para o seio como já sem vida de sua esposa Sara e, longe de desanimar, de cair na armadilha de uma lógica humana dedutiva, elecom uma esperança para além do que se podia esperar, acreditou! Abraão não era um alienado ou um ignorante da sua realidade, mas era um crente em Deus que tudo pode.Acreditava num Deus que pode dar a vida aos mortos e chamar à existência o que não existe! Neste tempo de“guerra contra o inimigo invisível” estes dois conceitos estão diante de nós como dois caminhos. Quem tomar o caminho do abismo da indiferença – terá um olhar voltado para si, com o perigo de não enxergar mais o outro, nem a si mesmo (perde o nome) e nem a Deus. Pode criar grandes abismos. Quem tomar o caminho da Santa indiferença – estará na via de se capacitar na confiança e na fé nas promessa de Deus; e é por causa desta fé que nós nos engajamos para diminuir o sofrimento dos nossos irmãos, que nos capacitamos na doação ao próximo. Nosso futuro está nas mãos de Deus, façamos, com Ele, tudo o que deve ser feito! Unida pela e na Presença de Deus, Ir. Rita Batista