PAPA FRANCISCO LANÇARÁ SUA NOVA ENCÍCLICA “FRATELLI TUTTI” (TODOS IRMÃOS), EM 3 DE OUTUBRO
10 de setembro de 2020
CONFIANÇA!
15 de setembro de 2020

“A mudança das situações históricas e seus respectivos sinais exigem que se liberte a perene mensagem do Caminhar na Presença de Deus de todos os métodos de anúncio já ultrapassados e que tal mensagem seja transmitida a novas épocas e a homens diferentes, em forma nova, capaz de conquistar os corações. O mistério eterno deve permanecer. As palavras e as imagens, pelas quais o mistério ilumina os corações, poderão mudar, como a aparência dos séculos” (RE, 29).

Queridas Irmãs e irmãos, as palavras do padre Fundador são chaves de leitura de tamanha clareza e objetividade que pensei que seria suficiente retomá-las antes e durante o nosso estudo do tema: interrogações da pandemia aos cristãos, para alcançarmos um frutuoso estudo.

INTERROGAÇÕES DA PANDEMIA AOS CRISTÃOS

1. Onde está Deus?

Esta é uma pergunta que, na verdade, suscita tantas outras perguntas, tais como: - Sendo Deus amor, bondade e misericórdia como pode ficar indiferente a tantos sofrimentos de seus filhos? - Por qual razão Deus se cala diante da atual calamidade que nos assola? - É possível ver e participar deste tempo tão doloroso e continuar crendo em Deus?

Mesmo diante das incertezas deste tempo, aparecem vozes e situações alternativas positivas e esperançosas:

- Algumas pessoas recorrem à história para nos recordar que a humanidade atravessou e superou outros momentos de peste e pandemias, como as da Idade Média e a de 1918.

- Há humanistas que assinalam que esta crise é uma espécie de “quaresma secular”, que nos concentra em valores essenciais como a vida, o amor e a solidariedade e nos obriga a relativizar muitas coisas que até agora tínhamos como indispensáveis e intocáveis.

- De repente, diminui a contaminação atmosférica e o frenético ritmo de vida consumista que até agora não queríamos mudar. Cai o orgulho de sermos onipotentes, protagonistas do mundo moderno, senhores da ciência e do progresso.

- Na quarentena doméstica, sem poder sair à rua, começa-se a valorizar a realidade da vida familiar.

- Há um sentimento de interdependência. Todos dependem de todos; todos são vulneráveis, necessitados uns dos outros. Estamos interligados globalmente, para o bem e para o mal.

Estas respostas positivas e esperançosas são, com certeza, respostas partilhadas pelos cristãos, mas as verdades da fé provocam passos que ultrapassam as fronteiras do emocional e do racional.

Não estamos somente perante um enigma, mas diante de um mistério; um Mistério de fé que suscita uma confiança mais profunda em Deus Pai Criador, que é bom e misericordioso; no Deus Filho que está sempre conosco, o Emanuel; no Espírito vivificador, Senhor e doador de vida. E esta fé não é uma conquista, é um dom do Senhor, que nos chega através da Palavra na comunidade eclesial.

Tudo isto não impede que, como Jó, nos queixemos e discutamos ante Deus ao ver tanto sofrimento; não impede que, como no livro de Eclesiastes, constatemos a brevidade, leveza e vaidade da vida. Contudo, trata-se de queixas e de constatações que brotam de um coração que crê e espera em Deus. Trata-se de uma fé que reconhece a Jesus que assumiu o sofrimento até a cruz e passando pela cruz chega à ressurreição e indica para todos nós este mesmo caminho. “Quem quiser me seguir, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

Estamos, neste tempo, sendo convocados a reconhecer os nossos pecados e o pecado de toda a humanidade que tem causado tanta destruição e a pedir perdão. Somos chamados a assumir, a cada dia, atitudes de uma nova vida no Espírito.

Para os cristãos, a resposta à pergunta: Onde está Deus? - Ele está presente: na sua Igreja, nos sacramentos, na Sua Palavra, nas vítimas desta pandemia; está nos médicos e agentes de saúde que os atendem, está nos cientistas que buscam vacinas antivírus; está em todos os que nestes dias colaboram e ajudam para solucionar o problema atual; está nos que rezam pelos demais, nos que espalham esperança.

Na verdade, neste tempo cabe mais atenção que dúvidas. Pois, podemos encontrar Deus, quem sabe, onde não imaginávamos poder encontrá-Lo!

2. O que há depois da morte?

A atual pandemia tem provocado o reaparecimento de antigos questionamentos a nível pessoal e coletivo: Será que tudo acaba aqui? Desapareceremos no espaço infinito? Seremos reduzidos a um pouco de cinzas que se pode jogar no mar ou guardar numa urna?

Escrevendo sobre a realidade deste tempo no qual tantas famílias são surpreendidas pela realidade da morte, uma psicóloga alertava os pais para não ocultarem aos filhos a realidade da morte dos seus entes queridos, dizendo que estes viajaram, ou estariam sem condições de virem visitar a família, neste tempo. A profissional alertava sobre a necessidade de falar da realidade, numa linguagem acertada, mas sem ocultar a verdade. Sugeria falar da doença, e, depois, da morte destes.

Esta é, com certeza, uma boa alerta, mas não suficiente para o cristão! Como cristãos, mais que em outros tempos, somos chamados a rever as nossas convicções na vida eterna. Jesus esteve morto, mas vive. Ele venceu a morte para sempre. Por isso, como o Pai ressuscitou Jesus, também nos ressuscitará. Como sabemos, o Mistério Pascal não nos deixa alheios à realidade deste mundo, mas dá uma nova ótica, um novo sentido à vida!

3. O que fazer quando nos fecham as portas?

Como estávamos caminhando na história tudo parecia indicar as possibilidades de um futuro melhor, com mais segurança, com mais conforto proporcionado pelo avanço das tecnologias, etc. A atual pandemia colocou o mundo e, nele, a humanidade, num estado de vulnerabilidade tal, que fez suscitar os seguintes questionamentos: Há sentido para a vida? Existe possibilidade de futuro? Existem, ainda, portas a serem abertas?

Como cristãos somos chamados a estar atentos para não assumir respostas não cristãs à estes questionamentos. Diante de tanto mal e tantas maldades a resposta de visão maniqueísta que afirma que a matéria é intrinsecamente má, pode parecer lógica. Ou ainda, sermos afrontados pelo perigo de uma fé que acredita que, após ter criado este mundo, Deus o abandonou a si mesmo, visão deísta, não cristã.

Como cristãos somos chamados a resgatar e a fortificar a nossa fé no Deus Criador, no Deus Javé que é Emanuel. Acreditamos que o mundo procede da vontade livre de Deus, que quis fazer as criaturas participantes do seu Ser, da sua sabedoria e da sua bondade. Não só lhe dá o ser e o existir, mas a cada instante a mantém no ser, lhe dá o agir e a conduz ao seu termo. Depois da criação, Deus não abandona a criatura a si mesma. Por isso há esperança!

Estejamos atentamos para a verdade que o Espírito Santo pode estar fechando portas que necessitam ser fechadas. Portas de um mundo que gera morte. Fechando estas portas, no entanto, Ele, o Espírito Santo, quer abrir outras portas! – Uma coisa é certa: é preciso conversão para aceitar este novo caminho do Espírito Santo!

4. Como sair do atual caos?

Caos significa confusão e desordem. Os elementos da matéria, antes da criação do Universo, encontravam-se numa confusão geral. O mais oposto ao caos é o Espírito Santo. Sempre no momento de confusões e desordens atua o Espírito.

Quando entramos num caminho de conversão, que já é ação do próprio Espírito em nós, entramos para o mundo da ordem, para uma nova ordem!

A nossa resposta como cristãos diante da ação do Espírito Santo, é a de não querer voltar ao caos que éramos antes; mas, querer viver um novo pentecostes, viver a vida no Espírito

A título de informação

Desde quando houve o agravamento da pandemia de COVID-19, em março, uma comissão especial do Vaticano, criada a pedido do Papa Francisco, tem trabalhado em diversos âmbitos para enfrentar os desafios presentes e futuros da crise mundial do novo coronavírus.

Instituída pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral (DSDHI), Cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, Prefeito do Dicastério, em colaboração com outros departamentos da Cúria Romana e outras organizações, essa comissão tem dois objetivos:

- expressar a solicitude e o amor da Igreja pela família humana diante da pandemia, principalmente por meio da análise;

- refletir sobre os desafios socioeconômicos e culturais do futuro e a proposta de diretrizes para enfrentá- los.

Essa comissão especial, que funciona como uma espécie de “força-tarefa” a fim de pensar e articular o pós-pandemia, possui cinco grupos de trabalhos:

O Grupo 1: - é dedicado à escuta e ao apoio das Igrejas locais. O grupo tem a tarefa de colaborar positivamente com as iniciativas de caridade promovidas por outros setores da Santa Sé, como a Esmolaria Apostólica, a Congregação para a Evangelização dos Povos e a Farmácia do Vaticano.

O Grupo 2: - é responsável por pesquisas e estudos da pandemia, reflexões sobre a sociedade e sobre o mundo pós-coronavírus, particularmente nos setores do meio ambiente, da economia, etc. O grupo realiza seu trabalho em conjunto com as pontifícias academias para a Vida e a das Ciências, também com várias organizações que já colaboram com o DSDHI.

O Grupo 3: - tem a tarefa de informar sobre os trabalhos dos grupos e promoverá a comunicação com as Igrejas locais, ajudando-as a responder de maneira autêntica e plausível ao mundo pós-coronavírus.

O Grupo 4: - apoiará a Santa Sé nas suas atividades e nas suas relações com os países e organismos internacionais comunicando-lhes os resultados da pesquisa, do diálogo e das reflexões produzidas.

O Grupo 5: - é responsável pelo financiamento para sustentar a assistência da Comissão para a COVID- 19 às Igrejas locais e às organizações católicas, e a sua atividade de pesquisa, análise e comunicação.

"A nossa vida depois da pandemia não deve ser uma réplica do que foi antes". Cardeal Czerny.

(P.S. Algumas idéias deste texto são inspiradas no vídeo do padre jesuita Victor Codina)

Irmã Rita Batista Cordeiro de Nascimento